O pergaminho faminto
Glockenspiel havia acabado de chegar da taverna, ainda embriagado, mas estava sem sono. Três batidas na janela são ouvidas, ele olha questionando se elas realmente ocorreram. Se levanta, abre uma fresta, sente um vento gelado entrar e nada mais. Um frio na nuca faz ele espichar todo o corpo. Olha pra trás, sonda o quarto e então vê, sobre a escrivaninha, uma carta.
Senta-se novamente, analisa o brasão esculpido em cera.
-- Eu já vi esse símbolo em algum lugar... – coça a barba enquanto pega a carta e quebra o selo.
No mesmo instante em que o selo é quebrado o anão se lembra de quem usa esse símbolo. As letras dentro da carta começam a subir pelos seus braços e a compreensão do que estava escrito começa a ser escrita em sua memória, talvez na alma, nunca tivera resposta para esse questionamento, o que sabia era dessa maldita sensação de estar sendo possuído.
-- Sluagh MALDI...
“O Pergaminho Faminto
*por Ash Ashes*
Há coisas que os homens compram por vaidade e chamam de necessidade. O pergaminho de comunicação é uma delas.
Eu soube da existência dele três noites antes de Glockenspiel comprar o seu. Ninguem havia me contado diretamente sobre a sua existência, afinal ninguém me conta nada, e é exatamente por isso que eu sei de tudo. Eu estava sob as vigas do teto da Estalagem do Corvo Manco, onde vou quando quero ouvir uma cidade respirar sem que ela perceba que está sendo ouvida, quando o mercador entrou. Reconheci o cheiro antes de reconhecer o rosto. Cheiro de Banalidade fresca, aquele odor de giz e ferro que os mercadores da Corte Sombria carregam quando vendem algo que não deveria ser vendido.
Ele não estava sozinho. Trazia uma caixa de madeira escura amarrada com correntes finas Segui o mercador por quatro noites. Não é difícil seguir alguém quando ninguém espera ser seguido por algo do tamanho de uma sombra estreita colada ao beiral de um telhado. Aprendi, ao longo dos anos, que o segredo da furtividade não está em não ser visto, está em ser visto e não parecer interessante o bastante para que alguém pergunte por quê.
Descobri onde ele guardava o resto do estoque: um porão sob a curtumaria, alugado sob nome falso, pago com moedas que eu reconheci como tendo passado, em algum momento, pelas mãos de alguém da Guilda do Silêncio. Isso já bastaria para qualquer ser como eu de bom senso ir embora e fingir que nunca tinha visto nada. Eu fui embora. Fingi por meia hora.
Depois voltei, porque essa é a minha maldição e também o meu ofício: eu não sei deixar um segredo fechado.
Toquei um dos pergaminhos ainda embalados, ao fechar meus olhos sussurrei as palavras em um idioma compartilhado por seres feéricos e a magia percorreu meu braço, As lembranças vieram num turbilhão. Pedi apenas para ver a origem, o primeiro nó do fio. O que vi foi um tear.
Cada pergaminho vendido é ligado a esse tear por uma linha que ninguém enxerga, feita do mesmo material de que são feitos os votos não cumpridos e as promessas ditas por educação. Quando alguém escreve uma mensagem, uma fração de sua atenção é puxada por essa linha e tecida ali, no tear, junto com milhares de outras frações de milhares de outras pessoas que juraram, cada uma, que aquilo era só por hoje, só essa vez, só para checar se havia algo importante.
Não havia. Nunca há. Esse é o mecanismo. O pergaminho não vende comunicação. Vende a promessa de que algo importante pode estar chegando, e cobra em atenção o preço de manter você esperando por ela.
Perguntei ao mercador, de longe, através de um garoto de rua que pago há anos para fazer perguntas que meu rosto não pode fazer, quem tecia no outro lado do tear. Ele não soube responder, ou soube e teve medo de responder, o que no meu ofício dá exatamente na mesma resposta. Mas os meus contatos na Guilda do Silêncio me disseram um nome que preferi não escrever em lugar nenhum, nem aqui.
Direi apenas isto: existe, no Sonhar (história para outro dia) mais fundo desta cidade, algo que se alimenta havia séculos de frustrações. De gente que espera cartas que não chegam, mensageiros que se atrasam, respostas que demoram. Era uma fome pequena, artesanal, quase gentil. Alguém teve a ideia de industrializá-la.
Voltei à Estalagem do Corvo Manco na noite em que Glockenspiel comprou o seu pergaminho. Estava lá, no teto, quando ele saiu para pagar a jarra que o taverneiro insistiu tanto em vender. Podia ter dito alguma coisa. Podia ter descido, tocado seu ombro, avisado sobre o tear e a coisa que se alimenta do outro lado dele....não disse.
Em parte porque um Sluagh que se preze aprende cedo que revelar um segredo antes da hora certa é o mesmo que arrancá-lo pela raiz, perde-se a colheita inteira por impaciência. Em parte porque, se sou honesto, e raramente tenho essa vaidade, eu queria ver até onde ele chegaria sozinho e isso faz parte da diversão.
Ele chegou longe. Vi-o, semana após semana, checar o pergaminho sem motivo, guardá-lo, checar de novo. Vi-o brigar com um mercador de cordas invisível através de uma tela que ele nem sabia que era uma tela. Vi-o esconder o pergaminho dentro da mochila e ir buscá-lo dez minutos depois, como um bêbado que jura ter parado de beber enquanto já está a caminho da próxima taverna.
E, no fim, o vi não abrir a mensagem do pai. Essa foi a única coisa que fez com aquele objeto que me pareceu, genuinamente, sabedoria.
Meus olhos, dizem, às vezes mudam de cor quando eu sinto algo que preferia não sentir. Não sei dizer que cor tomaram naquela noite, olhando um anão bêbado escolher não alimentar o tear com o único pedaço de atenção que talvez realmente importasse. Sei apenas que os fechei antes que alguém da rua olhasse para cima e perguntasse o que uma sombra estava fazendo ali, tão parada, por tanto tempo.
Continuo seguindo o fio até o Sonhar profundo. Um dia chego ao tear. Quando chegar, não sei ainda se vou cortá-lo ou apenas registrar seu desenho, como registro tudo, porque essa também é uma fome, e eu, mais do que ninguém, deveria saber reconhecer uma fome quando a alimento.
Por ora, guardo o nome que descobri num lugar onde nem eu mesmo vou procurar sem motivo. Alguns segredos merecem ficar amarrados com correntes finas demais para prender qualquer coisa material.
Talvez um dia eu lhe entre essa carta, companheiro, mas agora me pego refletindo sobre o que observei nos últimos dias. As pessoas desejam guardar segredos ao mesmo tempo que querem que as outras saibam disso. Um desejo do ego, como se quisessem que cobiçassem algo que pode nem existir. Elas instigam, instigam até criar o desejo naqueles que nada almejavam. E como um buraco negro, vai se alimentando de tudo a sua volta, ficando mais denso, mais faminto...e pelo o que?- Nem mesmo eles sabem, mas a fome não diminui. O que aconteceria se alguns segredos fossem revelados?”
-- TOOOOOO!!. – Glockenspiel começa a respirar fundo se recobrando daquela lisergia característica de magia feérica.
-- Por que ele não ode sentar comigo num bar, como uma pessoa normal e me contar essa história. Eu gosto dele, mas ainda mato esse maldito.
Após extravasar o anão se recosta na cadeira e degusta da sensação única, ele sabe que reclama demais e que não verdade gosta dessas experiências. O amigo sempre trazia inspiração, apesar de seu tom tão soturno e desconfiado.
-- Espera, ele estava me espionando esse tempo todo e não tomou uma cerveja comigo?! – da um salto da cadeira e começa a procurar pelo quarto.
Não encontra nada, senta na cama e balbucia aceitando (e agradecendo por não ter mais ninguém ali).
-- Pensando bem seria muito esquisito encontrar ele embaixo da cama agora.
-- Eu concordo...- sussurra uma voz em seu ouvido,
Notas do Bardo
“Dizem que o rei proibiu pergaminhos com luz própria, alegando que retiram a produtividade dos camponeses. Mal sabe ele que estamos todos apenas esperando o próximo episódio das Crônicas de Dragão-Z.”
