M3mórias d3 R3solução
-- Pirralhos malditos!! Eu sabia! Eles estavam usando o pergaminho durante a prova.
Começo a anotar o nome de todos que enviaram mensagens durante a prova. Paro, reflito e talvez não seja a hora de tomar medidas tão radicais, vamos dar mais uma olhadinha...
“Não pode cair uma chuva que me dá vontade de ligar o espelho mágico e pedir pro professor dar aula a distância.”
“Lembro de um semestre que choveu tanto numa sexta-feira a ponto de alagar o entorno da praça da escola! Era dia de prova de teoria da evocacao e o professor Vladivostoki disse que não ia cancelar porque já estava na escola! Alguns professores não ligam para as dificuldades dos alunos!”
-- Se tivessem aprendido, no segundo semestre, a conjurar a bolha de absorção de água (preciso arrumar um nome melhor pra essa magia) ou pegado um dos pergaminhos que a escola fornece não iria se molhar, queridinhos.
“Se o professor não fosse de vassoura ou tapete voador para escola, ele não iria nesse calor infernal!!”
“Teve um dia que teve anuncio da organização dos magos elementais dizendo que iria cair o mundo, toda chuva prevista pra aquele mês, mas eu já estava na rua e ele respondeu alguns alunos pelo papiro mágico que não ia cancelar a aula. Teve aula para mim e mais um aluno apenas!”
“Quarta feira ele já estava falando e reclamando dos alunos que pedem para cancelar aula só por conta da previsão de chuva”
Meu sangue começou a ferver, senti como se meus olhos fossem pular das orbitas oculares. Chutei cadeira, quebrei minha caneca. Ouvi batidas na minha porta.
-- NÃO ENCHAM MEU SACO!!
As batidas pararam, meu coração ainda fervilhava de raiva com os absurdos que estava lendo. Ando de um lado para o outro, começo a recitar respostas que eu daria para companheiros de aventuras, todas me garantiriam expulsão com desonra do cargo de professor. Por fim me decido, pego o pergaminho e começo a escrever:
“Queridos e ingratos alunos.
Se uma chuva é suficiente para fazer vocês desejarem cancelar uma aula, talvez o problema não esteja na chuva. Talvez esteja na disposição de vocês para estudar. O professor atravessou a tempestade, chegou à escola e ainda encontrou forças para ensinar. Vocês tinham apenas que aparecer.”
Agora, se uma nuvem no céu já é motivo para abandonar seus deveres, sugiro que pensem seriamente em trocar a academia por uma carreira na previsão do tempo. Pelo menos lá ninguém espera que vocês estudem.”
Aguardo ansioso enquanto vejo vários nomes aparecendo como “digitando”, o tempo passa. 1 minuto, 5, minutos, 11 minutos até que uma mensagem aparece.
“Conexão mágica perdida, você foi removido do grupo”.
-- Merda! Preciso de uma cerveja.
Desço pra taverna, sento no balcão e peço para me servirem sem parar.
--A gente faz o nosso melhor e esses fedelhos não dão a mínima, reclamam de tudo. Nada é bom o suficiente. Só agradecem se você dá uma prova em dupla, com consulta e ainda dando dicas durante a mesma. Isso é um absurdo!! Eu estou lá trabalhando e nem queria estar!! Nunca mais fico devendo favor pra ninguém – Sem me dar conta que estava falando em voz alta, ouço o taverneiro dizer...
-- O Sr. É o terceiro professor que diz essas mesmas coisas aqui desde ontem.
Pego pelo espanto dele ter ouvido o que achei estar pensando, apenas termino a caneca e subo para o meu quarto. Ao abrir a porta, o horror consome minha alma...
Ativo o encantamento de localização para achar lesto, saio correndo, esbarrando pelas paredes. Saio da taverna, vomito na sua entrada. Lavo a boca e a barba no chafariz e continuo correndo até onde o fogo fátuo criado me leva até o gato. Toca da cutia, é um belo nome e faz sentido um gato gostar daqui.
Escancaro a porta do lugar rabadamente, todos olham para mim. Alguns até levantam a mão num cumprimento, após me reconhecerem. Então avisto o chapéu que já estava se esgueirando para os fundos da taverna.
-- Pode parando aí gatinho!
Lesta ameaça correr para porta que leva a cozinha, mas a taverneira, uma meio-orc de 2,5m de altura, ombros e braços muito largos os cruza parada em frente a mesma. Lesto arqueia os ombros e volta a se sentar na mesa que estava.
-- Estava fugindo por que, hein senhor Lesto?
-- Fugindo? Jamais, eu estava apenas...indo ao banheiro.
-- É claro. Mas não há necessidade. Eu tive uns contratempos e preciso de alguém pra vigiar minha casa;
-- O senhor respondeu no grupo do pergaminho que lhe entreguei, não foi?
-- Isso não é importante. A questão é o que aqueles pirralhos fizeram. Abri a porta do meu quarto, não deve ter mais de meia hora. E o odor nauseante, um cheiro ácido e acre, semelhante a esterco úmido misturado com peixe velho, que ardia nas narinas. Era bosta e pena de pássaro pra tudo que é lado, vi alguns ratos também. Tudo cagado, porra!! Tudo cagado! E aquilo eram familiares, inclusive reconheci alguns, duas araras que eram de duas alunas minhas.
Lesto não contem a gargalhada, bate na mesa, chacoalha o corpo até olhar pro meu semblante fervoroso, a cara vermelha, os olhos apertados, a mão direita já segurando a bainha do sabre. Ele pigarreia, se recompõe.
-- Perdoe minha falta de tato Senhor Glockenspiel, isso foi efeito da bebida. Façamos assim, eu prometo ajuda-lo, dou até um desconto. Inclusive, sou excelente guarda costas, silencioso, passo despercebido e quando menos esperam minhas garras já estão em suas gargantas.
-- Melhor assim, mas calma lá, não é pra fazer nada disso com os alunos, eu possuo princípios. Vou apenas reprovar todos que usaram o pergaminho durante minha última prova. Eu quero que você não deixe mais nenhum familiar entrar em minha casa e pode fazer o que quiser com eles.
Lesto abre um sorriso malicioso e apenas acena a cabeça afirmativamente.
No dia seguinte eu vou até a escola. Convoco uma reunião com os professores e a diretora Lindaia. Mostro todas as provas que possuía, inclusive um saco cheio das bostas dos familiares. Alguns professores mostram pergaminhos também, apoiam minha causa e a vontade de reprovar os alunos, além de uma suspensão. Após ouvir todos, Chuva Fresca então informa seu parecer:
-- Meus caros, entendo perfeitamente os vossos sentimentos e os alunos merecem sim uma repreensão. Dito isto, os senhores deveriam ser exemplos e adquirir itens mágicos que forjam identidades anônimas não apenas é antiético como crime que poderia causar a demissão por justa causa dos senhores. Portanto, irei refletir e em alguns dias darei minha resposta final.
Todo mundo saiu com o rosto corado de raiva ou vergonha, mas calados. Os olhares diziam tudo, a maioria havia cometido o mesmo erro e quem não o fez, desejava ter feito, pelo menos até antes dessa reunião. Me junto a alguns deles e vamos afogar as mágoas na casa do professor Vladivostoki.
No dia seguinte, a tarde, volto para casa. Abro a porta e vejo Lesto na varanda, de costas, cercado de penas azuis e prateadas e parecia estar comendo algo. Ele se vira para mim, com uma coruja que eu conhecia, era linda, majestosa, extremamente educada. O pavor toma conta de mim e o gato, estende as patinhas oferecendo-a para mim.
Começo a fazer gestos, iniciando a conjuração de uma magia, mas antes sem gritar:
-- SEU FILHO DA PUTA! Essa é a familiar da diretora, é a...”
== SÁFIRA!! – eu grito para Régi.
-- SÁFIRA!! É isso.
Reginaldo se vira para a muralha de energia e começa a gritar a palavra, até que começa a tossir e ter dificuldade pra falar.
-- O...o... que...kof, kof. Está a... con... tecendo?
--Eu achei que se eu dissesse antes você entraria em desespero, mas essa sala foi fechada à vácuo e nosso tempo está acabando, acho que falei demais.
-- Vpcê...você...
-- Calma, procura por uma safira pelo tesouro.
Após cerca de 2 minutos ele volta com um colar prateado contendo uma enorme safira circular como pingente. Eu então tiro minha camisa e mostro a tatugem, explicando que o Zheo que havia feito. Basta você tocar a safira na tatuagem, percorrendo todo seu traçado e dizer as palavras “Domum eamus!”.
Régi o faz, a safira começa a ser consumida pela magia que é ativada, assim como a tatuagem. Seguro firme a mochila com os pergaminhos e umas coisinhas mais. Meu companheiro estranhamente me olha cheio de ódio no coração, mas com os bolsos cheios.
Um último pensamento me ocorre “ainda bem que eu não disse que vendi a safira que o Zheo havia me dado...” então desaparecemos do cofre.
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Notas do Bardo
“Dizem que o rei proibiu pergaminhos com luz própria, alegando que retiram a produtividade dos camponeses. Mal sabe ele que estamos todos apenas esperando o próximo episódio das Crônicas de Dragão-Z.”
